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na primeira parte do sonho de hoje, eu atravessava uma cidade litorânea com duas meninas. a gente estava perdida. a gente sabia o caminho, mas a gente estava perdida ou era longe e difícil de chegar onde havíamos de chegar. areia quente e um asfalto. eu via falésias. conseguíamos uma carona com um casal de idosos num fusca. uma das meninas pressentia que eles nos queriam mal e desmaiava. eu falava por pensamento (porque no sonho eu não falava com a voz) que conseguiríamos enganá-los e usaríamos da falsa boa vontade para chegarmos ao nosso destino. era uma cidade litorânea, eu já disse? tudo no fundo ficou escuro e não me lembro bem, até que veio um outro sonho de hoje: tinha um aviso de que alguém iria colocar fogo em minha casa. o aviso estava em um envelope branco pequeno. eu não lia com os olhos nem via o que estava escrito. tudo por pensamento. eu saía com os dois filhos e meu tio que me levava a uma espécie de central dos bombeiros onde eu teria que pedir proteção - iam colocar fo...
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XVIII Então tal gesto testemunha que andei em intervalos. Salteando como andam as crianças e os lunáticos, atravessei o vão, girei sobre meus próprios passos e eis-me aqui: no começo.

Inelutável volume dos corpos

"É que a visão se choca sempre com o inelutável volume dos corpos humanos" DIDI-HUBERMAN, Georges. O que vemos, o que nos olha . São Paulo: Ed. 34, 1998, pág. 30.

Espera, de Juliano Garcia Pessanha

Quando a alma do mundo me visita e eu sinto a dor da extinção, então eu tiro do bolso o bilhete que contém o nosso nome: "Permaneça no enigma, pois aquilo que desaloja é o mais hospitaleiro; se a turbulência separa, respeite a doçura de seu mando - ela difere do lento assassinato que constitui a tua herança." PESSANHA, Juliano Garcia.  "Espera", In: Ignorância do Sempre . São Paulo: Ateliê Editorial, 2000.

Prometeu

Sobre Prometeu dão notícia quatro lendas: Segundo a primeira, ele foi acorrentado no Cáucaso porque havia traído os deuses aos homens, e os deuses remeteram águias que devoravam seu fígado que crescia sem parar.  De acordo com a segunda, Prometeu, por causa da dor causada pelos bicos que o picavam, comprimiu-se cada vez mais fundo nas rochas até se confundir com elas. Segundo a terceira, no decorrer dos milênios sua traição foi esquecida, os deuses se cansaram, as águias se cansaram, a ferida, cansada, fechou-se. Restou a cadeia inexplicável de rochas. A lenda tenta explicar o inexplicável. Uma vez que emerge de um fundo de verdade, ela precisa terminar de novo no que não tem explicação. (KAFKA, Franz. "Prometeu", In: Narrativas do Espólio (1914-1924)/ tradução e posfácio de Modesto Carone. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.)

Consubstanciais II - Macrouridae

Macrouridae (Flávio Dias Benaque) És-me assim no instante da hora anterior, No desvencilho do tom do infinito quartal: Eis-me morto na ausência da água, Mas vivo pelas mãos que carregam a cesta. Observam-me pelo estranhamento do cômico. Cômico, aproveito verdadeiramente o trágico E que não me tirem nada, deixem apenas doer E jazer nesta casa já sem fantasmas. Assombro-me no ímpeto duvidoso do crânio, Estática nigredo esperançosa da dúvida, Que lá fora está sem a cítara desafinada. Prolonga-me o sopro olhando-me sem perder a tez alva, já sem a borda de chegada, Mas a menina loura carrega-me em suas mãos E afasta-me do Pequeno Grande Mundo Sidarta: Fita-me sendo mãe do tempo e deixa-me no fosso do castelo de areia. A grandiosidade da torre suspensa esmaga-me em gotinhas de água com areia a dar forma à aventura feita pela musa que se despede sem a alegria do dia. Torno-me doido a procurá-la na torre que antes se erguia no brilho da tarde refletido no automóvel distante, que abrevia o...

XVII

quando me disse: " ao contemplar o catre vazio, preenche-o tu com este mesmo que o olha e, assim, presentifique a ausência austera dos teus mortos", compreendi que seria esta a condição imposta de uma vida em hiato, uma espera em bolhas, a contar estrelas inomináveis  - como quem tateia às cegas, procurando com as mãos uma réstia de luz que lhe embale durante o longo percurso.