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Mostrando postagens de 2013

Inelutável volume dos corpos

"É que a visão se choca sempre com o inelutável volume dos corpos humanos" DIDI-HUBERMAN, Georges. O que vemos, o que nos olha . São Paulo: Ed. 34, 1998, pág. 30.

Espera, de Juliano Garcia Pessanha

Quando a alma do mundo me visita e eu sinto a dor da extinção, então eu tiro do bolso o bilhete que contém o nosso nome: "Permaneça no enigma, pois aquilo que desaloja é o mais hospitaleiro; se a turbulência separa, respeite a doçura de seu mando - ela difere do lento assassinato que constitui a tua herança." PESSANHA, Juliano Garcia.  "Espera", In: Ignorância do Sempre . São Paulo: Ateliê Editorial, 2000.

Prometeu

Sobre Prometeu dão notícia quatro lendas: Segundo a primeira, ele foi acorrentado no Cáucaso porque havia traído os deuses aos homens, e os deuses remeteram águias que devoravam seu fígado que crescia sem parar.  De acordo com a segunda, Prometeu, por causa da dor causada pelos bicos que o picavam, comprimiu-se cada vez mais fundo nas rochas até se confundir com elas. Segundo a terceira, no decorrer dos milênios sua traição foi esquecida, os deuses se cansaram, as águias se cansaram, a ferida, cansada, fechou-se. Restou a cadeia inexplicável de rochas. A lenda tenta explicar o inexplicável. Uma vez que emerge de um fundo de verdade, ela precisa terminar de novo no que não tem explicação. (KAFKA, Franz. "Prometeu", In: Narrativas do Espólio (1914-1924)/ tradução e posfácio de Modesto Carone. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.)

Consubstanciais II - Macrouridae

Macrouridae (Flávio Dias Benaque) És-me assim no instante da hora anterior, No desvencilho do tom do infinito quartal: Eis-me morto na ausência da água, Mas vivo pelas mãos que carregam a cesta. Observam-me pelo estranhamento do cômico. Cômico, aproveito verdadeiramente o trágico E que não me tirem nada, deixem apenas doer E jazer nesta casa já sem fantasmas. Assombro-me no ímpeto duvidoso do crânio, Estática nigredo esperançosa da dúvida, Que lá fora está sem a cítara desafinada. Prolonga-me o sopro olhando-me sem perder a tez alva, já sem a borda de chegada, Mas a menina loura carrega-me em suas mãos E afasta-me do Pequeno Grande Mundo Sidarta: Fita-me sendo mãe do tempo e deixa-me no fosso do castelo de areia. A grandiosidade da torre suspensa esmaga-me em gotinhas de água com areia a dar forma à aventura feita pela musa que se despede sem a alegria do dia. Torno-me doido a procurá-la na torre que antes se erguia no brilho da tarde refletido no automóvel distante, que abrevia o...

XVII

quando me disse: " ao contemplar o catre vazio, preenche-o tu com este mesmo que o olha e, assim, presentifique a ausência austera dos teus mortos", compreendi que seria esta a condição imposta de uma vida em hiato, uma espera em bolhas, a contar estrelas inomináveis  - como quem tateia às cegas, procurando com as mãos uma réstia de luz que lhe embale durante o longo percurso.

pacto

quando o pensamento ocorreu, a tarde já se despedia dos presságios da véspera e acendia o azul. luz demais atrás dos meu olhos: um aperto opressor de tanta vontade de chegar mais perto. saía em adoração no metrô, contas nas mãos e o pacto de não ouvir nada que não falasse a minha linguagem de espectro naqueles dias de batalha. hoje, revejo os gatos que habitam aquele lugar-  os donos do estácio. "muito prazer em revê-los, senhores, e obrigada por guardar meu segredo." eles sorriram e me aclamaram princesa.

Pink's Dream

À Noite

Afundado na noite. Como alguém que às vezes baixa a cabeça para meditar, totalmente afundado na noite. Em torno as pessoas dormem. Uma pequena encenação, um inocente auto-engano de que dormem em casas, em camas firmes, sob o teto sólido, estirados ou encolhidos sobre colchões, em lençóis, sob cobertas, na realidade reuniram-se como outrora e mais tarde, em região deserta, um acampamento ao ar livre, um número incalculável de pessoas, um exército, um povo, sob um céu frio, na terra fria, estendidos onde antes estavam em pé, a testa premida sobre o braço, o rosto voltado para o chão, respirando tranquilamente. E você vigia, é um dos vigias, descobre o mais próximo pela agitação da madeira em brasa no monte de galhos secos ao seu lado. Por que você vigia? Alguém precisa vigiar, é o que dizem. Alguém precisa estar aí. (Kafka, Franz. Narrativas do Espólio . trad. de Modesto Carone. São Paulo, Companhia das Letras:2002.)