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Mostrando postagens de 2011

minha idade

é preciso muita juventude para tantas lágrimas . eu li. chega um momento em que você percebe que já não consegue mais chorar. e mais do que um fio branco na cabeça, um rosto riscado, uma massa desfeita na cabeça e um corpo que não passa senão de trevas repleta de órgãos , você percebe que a dor do banimento , a dor que não se exprime - a que se sente - a dor incomunicável, esta já não sai com o jorro da lágrima nem com o rasgo na palavra que faz arder a língua e a garganta, como se um exame de louva-deuses riscassem com as asas a sua voz ou o espaço de onde sai sua voz. eu me senti jovem quando abri o  livro e vi que é  preciso muita juventude para tantas lágrimas. e cada vez mais ouvindo a percepção dos outros que me dotavam de menos idade e nossas-como-você-está-bem percebi que a tristeza de uma mulher não vale um simpósio. só serve ao silêncio e aos encontros. uma visitação de um sorriso que a faça nascer, ainda que imersa na sua triste beleza ób...

a rosa de ninguém

ela pinta os olhos, abre os olhos, devolve a visão aos olhos. coloca a sua cabeça, como um anel. não sente mais nada porque aceitou não aceitar o mundo. pacificada, segue sem remorços porque sabe que não há de provar da terna mentira da palavra-afeto: prefere a doçura do abismo da palavra-espera. (arranque do seu peito a aparência, rapaz: ela não é a rosa de ninguém.)

não me ame tanto

       Os verdadeiramente banidos podem escolher a fome, a falta, o desespero da saudade absurda ou até mesmo serem interpelados pela sugestão nefasta da nostalgia e tragar da fumaça da sua cigarrilha. A nostalgia, nesse caso, é a prostituta idosa de meia calça rota, olhos manchados de olheira e lápis cajal. Contudo, como uma personagem de Lynch, ela sabe mais de nós do que toda a narrativa que nos atravessa.   (...)  C. não deveria ter dito que a amava, então, porque ele não pode estar com mais ninguém a não ser com ele-mesmo, não pela força poética do exílio, mas porque as pessoas que acontecem em seu percurso precisam ter a medida da ponte para o alcance de sua passagem. (ele a encontrou pronta. ela tinha o tamanho certo para ele. depois de destruí-la pedaço por pedaço, ele diz que precisa de espaço. e some.)

XVI

quando sol me impeliu a fechar os olhos e enxergar a febre de todos os objetos, eu saí da casa e fui acolhida novamente pela floresta onde tudo me era alheio .

A ponte, Franz Kafka

 A Ponte           Eu estava rígido e frio, era uma ponte estendido sobre um abismo. As pontas dos pés cravadas deste lado, do outro as mãos, eu me prendia firme com os dentes na argila quebradiça. As abas do meu casaco flutuavam pelos meus lados. Na profundeza fazia ruído o gelado riacho de trutas. Nenhum turista se perdia naquela altura intransitável, a ponte ainda não estava assinalada nos mapas. - Assim eu estava estendido e esperava; tinha de esperar. Uma vez erguida, nenhuma ponte pode deixar de ser ponte sem desabar.     Certa vez, era pelo anoitecer - o primeiro, o milésimo, não sei -, meus pensamentos se moviam sempre em confusão e sempre em círculo. Pelo anoitecer no verão o riacho sussurra mais escuro - foi então que ouvi o passo de um homem ! Vinha em direção a mim, a mim. - Estenda-se, ponte, fique em posição, viga sem corrimão, segure aquele que lhe foi confiado. Compense, sem deixar vestígio a insegura...

go slowly

(pra que eu não esqueça o sonho de hoje. e continue ... ) Go Slowly - Radiohead Over here Go slowly Come slowly to me I've been waiting Patient Patiently I didn't care But now i can see That there's a way out That there's a way out That there's a way out  

O outro, de Jorge Luís Borges

Ando (re)conhecendo meus heterônimos e começo, quando em vez, a deixá-los visitar meus sonhos. Eis um deles, e o que ele sonhou/escreveu por/para mim: O Outro Jorge Luis Borges O fato ocorreu no mês de fevereiro de 1969, ao norte de Boston, em Cambridge. Não o escrevi imediatamente, porque meu primeiro propósito foi esquecê-lo para não perder a razão. Agora, em 1972, penso que, se o escrevo, os outros o lerão como um conto e, com os anos, o será talvez para mim. Sei que foi quase atroz enquanto durou e mais ainda durante as noites desveladas que o seguiram. Isto não significa que seu relato possa comover a um terceiro. Seriam dez da manhã. Eu estava recostado em um banco, defronte ao rio Charles. A uns quinhentos metros à minha direita havia um alto edifício cujo nome nunca soube. A água cinzenta carregava grandes pedaços de gelo. Inevitavelmente, o rio fez com que eu pensasse no tempo. A milenar imagem de Heráclito. Eu havia dormido bem; minha aula da tarde anterior havia consegui...

porque os sonhos são seus

Você tem razão: não conte seus sonhos a ninguém... "Ohh... Can anybody see the light Where the morn meets the dew and the tide rises Did you realise, no one can see inside your view Did you realise, forwhy this sight belongs to you Ohh... Just set aside your fears of life Thru this sole desire" ("Strangers" - Portishead)

XV

A chuva me queimou a pele.  toda essa palavra líquida nutre demasiadamente a minha espera. eu digo sempre o mesmo. preciso sair daqui. me leve até o seu rosto, quando irei acontecer. na palavra do homem que nada sabe, de um homem que ignora. me leve a um tempo sem antes, só agora. cuidarei de não tocar, apenas preciso ser em seu rosto, pois nascemos para acontecer.

O meu elefante e o de Drummond

    Já que hoje está se falando no poeta itabirano, quero ler meu-poema-dele, um de que gosto, gosto imenso, como diria se fosse portuguesa. Gosto porque não mais gosto, mas gosto da lembrança de ter gostado, numa época outra. Então, penso que ainda gosto, porque me visito quando o vejo. Ele e o elefante. Eles.  A cinza melancolia. Esses olhos em que se deposita uma tristeza "fluida". Sincera. Mas quando a leio, já se desfaz em fingimento na minha percepeção. ***     Certa vez levei minha filha ao jardim zoológico e paramos para ver aquele animal irreal. Minha menininha falou, com o vocabulário e dicção típicos de uma criança de então dois para três anos de idade, os olhos molhados: mamãe, por que ele está tão triste? Ficou consternada, cheia de compaixão, chorou apertada em mim. Eu não pude desmentir. Não tive coragem. Sim, está. Preferimos ir embora: nossa visita acabava ali. Na foto em preto e branco com fundo de onça ela saiu rugindo com su...

XIV

Espero aquilo que meus olhos não ousarão tocar. Nas mãos,  a intuição da origem ( a quem  nomeio esperança ). Enquanto espero, "sou, em grande parte, a mesma prosa que escrevo." Quando meu coração for invadido pelo sol da tarde, serei eu, enfim, prosa: completamente.

Sonhos como uma fotografia I

sob a sombra de um salgueiro distante, o homem sonhava o sonho de uma extensa ausência. como se toda a amplitude ali começasse a ser medida. o espaço se mostrava insondável, ainda que seus olhos pudessem tocar o movimento da mãos do outro que acenava lentamente. antes que a tarde inundasse a casa, era preciso partir, saltar a pilhagem das coisas-palavras: a memória implacável - o corte - a cicatriz da origem. Ele, Lá: na varanda da casa de paredes brancas, na cidade coberta de neve onde nunca estivera, embora a intuísse. Ali: no "sonho como uma fotografia". Ele sempre estará lá: sonhando ao espelho.

as caixas

cada um e suas coisas e cada coisa e seus outros: você pertence aos seus livros e, seus intrumentos, às notas que não são suas. as notas comandam as digitais dos dedos que não são. tome seu café, saia. e guarde tudo em suas caixas de guardar caixas de guardar. pergunto, entretanto - em que caixa cabem o aceno o gosto a tarde a casa? no quarto de seus vestígios, ouço músicas de onde saem  (suas) músicas. pas de haut-parleus. as músicas que não cabem. os livros que não cabem. os retratos que não cabem: incomensuráveis, infintos e sem dono.

A Ressurreição de Lázaro, por Van Gogh (1889-90)

em casa

você não diz "em casa" e coloca outra palavra-casa onde já não moramos mais. não adianta distribuir suas cartas de culpados, uma vez que você é senhor de todos os seus argumentos e fatos de despedida. por isso, ponha outra casa-palavra em qualquer canto onde caiba o retrato, o livro, o hálito sem pedido, a história do futuro, no junho esquecido num pátio da origem por nós um dia imaginada. http://www.youtube.com/watch?v=dI6PRHjDvb8

XII

O espaço infinito recriado quando a presa se distancia da fome da besta. O grito distante, as cinzas, as ruínas. Contarei as manchas no dorso do animal preto e branco: sua existência põe em dúvida todos os códigos de minha linguagem. Quem sou eu diante dessas cores? Vê-lo é ter. Tangenciar os olhos vazados da origem.

substância

"O que sinto, na verdadeira substância com que o sinto, é absolutamente incomunicável." Bernardo Soares        A expressão é nula; como se ou se e somente se , tudo fosse igual a zero. Assim a dor, assim o riso, assim as reminiscências. Todavia, fingir a dor que deveras sentes também é saber silenciar, como também hesitar ou fazer pulsar o corte sem corte. A substância da palavra é a própria dor. Não é a dor quando a mão lhe fere- os membros com lápis, vidro ou faca. Não é a dor a ausência de alguém que te levou porque ele era consigo e contigo. A susbstância da dor é a palavra que fere a própria dor. Dize ao fingir e sente a palavra. Joga contra mim a tua substância. Mas, por favor, não me venhas tu com detalhes. Não te quero: quero tua palavra. A chave de tua casa.

XI

Espero a palavra inaudita. Que não me hospede,  que sacuda o pó da hostilidade mundana e me recolha, ainda que seja solitude, num fora que me integre ao comum dos tempos e inelutavelmente longe do furor dos passantes. Espero o dia amanhecer e ser dia, refeito de sua virtude, liberto de todo terror (arrancarei dele o arrepio). Como Soares e suas palavras-sereias: corpos tocáveis. Espero soar a palavra, soprar a palavra. Que seja inaudita.

não será mais tão prazeroso morrer ao seu lado

tomei do meu café. um espaço longo sem falas nem telefonemas nem duas linhas sequer. eu não seria tão confiante em mim mesma, por isso admiro sua coragem em desafiar a sorte de um encontro. o essencial não cabe em duas linhas, o essencial já coube entre nós, mas se foi com o gole de café que me fez chegar ao local onde tenho evitado pisar: a linha do fim. não, não cabe aqui o essencial, nem entre nós, nem em nossa linha do final. digo, entretanto: não será mais tão prazeroso morrer ao seu lado.

"We are accidents, waiting, waiting, to happen ..." There-There, Radiohead

 Livre arbítrio. Retirar a face das meninas, retirar a face dos meninos. Quem tem o direito de entregar um filho transfigurado a sua mãe ?                                                                            *** A menina Jade se abaixou e, com a única coisa que conseguiu pegar para a fuga, desenhava uma casinha em suas mãos, ao se perguntar: " O que vai acontecer comigo, Deus?"

X

A palavra despediu-se de mim para que meu corpo hospedasse, em toda sua extensão, o frio que anunciava a aproximação dos primeiros cantos das trevas noturnas. Os seios da Noite insone repeliam seus rebentos, um a um, famintos em tenso desesperar. Então, no silêncio a mim concedido, vesti cada um de seus sonhos quase mortos, com o púrpura colhido outrora, entre as folhas úmidas. Ornei-os com o marfim polido, alimentei-os. Eles seguiram saciados, fartos. Senti-me generosa até que a palavra a mim retornou. Doce. Mas sabia a mar. Contrita, apertei-lhe em meu colo, como não poderia deixar. Meu amor anseiava por tirar-lhe o terror. O sangue, o leite, o sal: de mim, palavra, provai.

Delicada

Alguns poucos alfinetes e caquinhos de vidro: tudo o que ela possuía no bolso do vestido. Há tempos trocou o pão de suas lágrimas pelo alimento do corte. Começou com os olhos do peixe dourado e foi aperfeiçoando a técnica com espécies cada vez mais coloridas: azul cobalto, verde níquel. Os peixes não precisam de cílios: a imensidão líquida os mantém sempre de olhos abertos. Perfurá-los fazia escoar seu excesso de comiseração por si própria – ela julgava amar demais. Os peixes chegavam a ela em suas bolhas transparentes, plásticas, mas o amor não sabe das ausências, tende sempre a tornar presente, embora só olhe o exterior do negativo que o duplica. O amor pisca seus olhos para umedecê-los e, neste exato instante, tudo lhe escapa. Delicada: ela agora dedicaria suas tardes a aprender a costurar-lhes os olhos perfurados – seus peixes metálicos – como se cílios fossem, embora eles não precisem: já estão imersos em lágrimas, já habitam um infinito instante líquido.

meu amor: eu espero

precisei acolher as suas contradições para perceber o quanto te amo. eu tenho comigo a certeza de que, de qualquer forma, sempre te esperei, te espero e continuarei esperando ainda que eu possa estender o braço e encontrar seu dorso. não vai mudar nada e tudo vai mudar: eis o nosso paradoxo infinito. a espiral que nos envolverá para sempre e por poucos segundos. sim, pois sempre há instantes em que a simplicidade de dizer sim faz sucumbir a obviedade mundana que insiste em ser mais e não. ela é pesada. você sonhava com a leveza. perdoar é difícil para quem vive em ritmo de contar os ritmos: perdoar é difícil a quem prefere arte à vida porque a arte não precisa de perdão. mas eu suplico por tua compaixão e que acredite que possa uma vez mais fechar os olhos e se atirar. confiança. meu amor é vocativo que não cabe na sua faculdade de julgar mas, meu amor, eu espero.

IX

Ao retornar a casa – em tarde inflamada – intuía, inelutavelmente, que mais um pouco de mim teria que se esquecer para que amanhecesse ainda na infância. Tardes de abril são quase sempre lentas e indolores mesmo que desesperadamente conscientes de que são vésperas. Eu anoitecia sem histórias nestes dias em que descobria que sempre esperaria.

VIII

Atrás do sonho das estrelas mais infinitamente distantes, escolhi sentir que a minha juventude atravessava ainda na lentidão dos cortejos brancos, embora as luzes confundissem todas as cores, tamanho era o litígio entre o que eu via e o que em meus olhos me via.

V

Consubstanciados em Ti, adotados pelo Verbo, somos: quando e sempre, mas isto, isto que somos, sempre nos escapa. Fomos. Assim que vemos correr a luz pela fenda aberta entre as montanhas podemos gritar jubilosos com a mesma voz que, por esperas agudas e vividas, aguardamos ouvir. Somos insones neste mundo; adormecidos na saudade de um céu que nos segue e antecede.

II

Quando me senti sucumbir ao calor desesperado do rosto recém-nascido, lembrei-me  da rosa  que "arrancou de meu peito a noite". a palavra-espera já me aguardava muito antes que eu me encontrasse no espaço em que habitei, ali: atrás do jardim secreto de minha insone infância.

I

É chegado o momento de  oferecer meu nada, minha humanidade ainda úmida do interior que me hospedava, e de volta receber a criança que repousei, o sonho que nasci, a antemanhã que me sonhou.