Alguns poucos alfinetes e caquinhos de vidro: tudo o que ela possuía no bolso do vestido. Há tempos trocou o pão de suas lágrimas pelo alimento do corte. Começou com os olhos do peixe dourado e foi aperfeiçoando a técnica com espécies cada vez mais coloridas: azul cobalto, verde níquel. Os peixes não precisam de cílios: a imensidão líquida os mantém sempre de olhos abertos. Perfurá-los fazia escoar seu excesso de comiseração por si própria – ela julgava amar demais. Os peixes chegavam a ela em suas bolhas transparentes, plásticas, mas o amor não sabe das ausências, tende sempre a tornar presente, embora só olhe o exterior do negativo que o duplica. O amor pisca seus olhos para umedecê-los e, neste exato instante, tudo lhe escapa. Delicada: ela agora dedicaria suas tardes a aprender a costurar-lhes os olhos perfurados – seus peixes metálicos – como se cílios fossem, embora eles não precisem: já estão imersos em lágrimas, já habitam um infinito instante líquido.
escrita e existência