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Mostrando postagens de março, 2011

Delicada

Alguns poucos alfinetes e caquinhos de vidro: tudo o que ela possuía no bolso do vestido. Há tempos trocou o pão de suas lágrimas pelo alimento do corte. Começou com os olhos do peixe dourado e foi aperfeiçoando a técnica com espécies cada vez mais coloridas: azul cobalto, verde níquel. Os peixes não precisam de cílios: a imensidão líquida os mantém sempre de olhos abertos. Perfurá-los fazia escoar seu excesso de comiseração por si própria – ela julgava amar demais. Os peixes chegavam a ela em suas bolhas transparentes, plásticas, mas o amor não sabe das ausências, tende sempre a tornar presente, embora só olhe o exterior do negativo que o duplica. O amor pisca seus olhos para umedecê-los e, neste exato instante, tudo lhe escapa. Delicada: ela agora dedicaria suas tardes a aprender a costurar-lhes os olhos perfurados – seus peixes metálicos – como se cílios fossem, embora eles não precisem: já estão imersos em lágrimas, já habitam um infinito instante líquido.

meu amor: eu espero

precisei acolher as suas contradições para perceber o quanto te amo. eu tenho comigo a certeza de que, de qualquer forma, sempre te esperei, te espero e continuarei esperando ainda que eu possa estender o braço e encontrar seu dorso. não vai mudar nada e tudo vai mudar: eis o nosso paradoxo infinito. a espiral que nos envolverá para sempre e por poucos segundos. sim, pois sempre há instantes em que a simplicidade de dizer sim faz sucumbir a obviedade mundana que insiste em ser mais e não. ela é pesada. você sonhava com a leveza. perdoar é difícil para quem vive em ritmo de contar os ritmos: perdoar é difícil a quem prefere arte à vida porque a arte não precisa de perdão. mas eu suplico por tua compaixão e que acredite que possa uma vez mais fechar os olhos e se atirar. confiança. meu amor é vocativo que não cabe na sua faculdade de julgar mas, meu amor, eu espero.

IX

Ao retornar a casa – em tarde inflamada – intuía, inelutavelmente, que mais um pouco de mim teria que se esquecer para que amanhecesse ainda na infância. Tardes de abril são quase sempre lentas e indolores mesmo que desesperadamente conscientes de que são vésperas. Eu anoitecia sem histórias nestes dias em que descobria que sempre esperaria.

VIII

Atrás do sonho das estrelas mais infinitamente distantes, escolhi sentir que a minha juventude atravessava ainda na lentidão dos cortejos brancos, embora as luzes confundissem todas as cores, tamanho era o litígio entre o que eu via e o que em meus olhos me via.

V

Consubstanciados em Ti, adotados pelo Verbo, somos: quando e sempre, mas isto, isto que somos, sempre nos escapa. Fomos. Assim que vemos correr a luz pela fenda aberta entre as montanhas podemos gritar jubilosos com a mesma voz que, por esperas agudas e vividas, aguardamos ouvir. Somos insones neste mundo; adormecidos na saudade de um céu que nos segue e antecede.

II

Quando me senti sucumbir ao calor desesperado do rosto recém-nascido, lembrei-me  da rosa  que "arrancou de meu peito a noite". a palavra-espera já me aguardava muito antes que eu me encontrasse no espaço em que habitei, ali: atrás do jardim secreto de minha insone infância.