é preciso muita juventude para tantas lágrimas. eu li. chega um momento em que você percebe que já não consegue mais chorar. e mais do que um fio branco na cabeça, um rosto riscado, uma massa desfeita na cabeça e um corpo que não passa senão de trevas repleta de órgãos, você percebe que a dor do banimento, a dor que não se exprime - a que se sente - a dor incomunicável, esta já não sai com o jorro da lágrima nem com o rasgo na palavra que faz arder a língua e a garganta, como se um exame de louva-deuses riscassem com as asas a sua voz ou o espaço de onde sai sua voz. eu me senti jovem quando abri o livro e vi que é preciso muita juventude para tantas lágrimas. e cada vez mais ouvindo a percepção dos outros que me dotavam de menos idade e nossas-como-você-está-bem percebi que a tristeza de uma mulher não vale um simpósio. só serve ao silêncio e aos encontros. uma visitação de um sorriso que a faça nascer, ainda que imersa na sua triste beleza óbvia, doce, vulgar. hoje, depois de muito tempo de secura e impossibilidade de fazer jorrar a líquida palavra-dor, chorei, mas foi rápido. e com raiva e com o sal da razão saturada. como sexo sem desejo algum. como um discurso de um suplemento cultural de jornal para embrulhar o peixe de domingo.
preciso de menos mundo e mais de minhas lágrimas. é preciso muitas lágrimas para se ter a idade que se tem.