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minha idade

é preciso muita juventude para tantas lágrimas. eu li. chega um momento em que você percebe que já não consegue mais chorar. e mais do que um fio branco na cabeça, um rosto riscado, uma massa desfeita na cabeça e um corpo que não passa senão de trevas repleta de órgãos, você percebe que a dor do banimento, a dor que não se exprime - a que se sente - a dor incomunicável, esta já não sai com o jorro da lágrima nem com o rasgo na palavra que faz arder a língua e a garganta, como se um exame de louva-deuses riscassem com as asas a sua voz ou o espaço de onde sai sua voz. eu me senti jovem quando abri o  livro e vi que é  preciso muita juventude para tantas lágrimas. e cada vez mais ouvindo a percepção dos outros que me dotavam de menos idade e nossas-como-você-está-bem percebi que a tristeza de uma mulher não vale um simpósio. só serve ao silêncio e aos encontros. uma visitação de um sorriso que a faça nascer, ainda que imersa na sua triste beleza óbvia, doce, vulgar. hoje, depois de muito tempo de secura e impossibilidade de fazer jorrar a líquida palavra-dor, chorei,  mas foi rápido. e com raiva e com o sal da razão saturada. como sexo sem desejo algum. como um discurso de um suplemento cultural de jornal para embrulhar o peixe de domingo.
preciso de menos mundo e mais de minhas lágrimas. é preciso muitas lágrimas para se ter a idade que se tem.

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meu amor: eu espero

precisei acolher as suas contradições para perceber o quanto te amo. eu tenho comigo a certeza de que, de qualquer forma, sempre te esperei, te espero e continuarei esperando ainda que eu possa estender o braço e encontrar seu dorso. não vai mudar nada e tudo vai mudar: eis o nosso paradoxo infinito. a espiral que nos envolverá para sempre e por poucos segundos. sim, pois sempre há instantes em que a simplicidade de dizer sim faz sucumbir a obviedade mundana que insiste em ser mais e não. ela é pesada. você sonhava com a leveza. perdoar é difícil para quem vive em ritmo de contar os ritmos: perdoar é difícil a quem prefere arte à vida porque a arte não precisa de perdão. mas eu suplico por tua compaixão e que acredite que possa uma vez mais fechar os olhos e se atirar. confiança. meu amor é vocativo que não cabe na sua faculdade de julgar mas, meu amor, eu espero.

A ponte, Franz Kafka

 A Ponte           Eu estava rígido e frio, era uma ponte estendido sobre um abismo. As pontas dos pés cravadas deste lado, do outro as mãos, eu me prendia firme com os dentes na argila quebradiça. As abas do meu casaco flutuavam pelos meus lados. Na profundeza fazia ruído o gelado riacho de trutas. Nenhum turista se perdia naquela altura intransitável, a ponte ainda não estava assinalada nos mapas. - Assim eu estava estendido e esperava; tinha de esperar. Uma vez erguida, nenhuma ponte pode deixar de ser ponte sem desabar.     Certa vez, era pelo anoitecer - o primeiro, o milésimo, não sei -, meus pensamentos se moviam sempre em confusão e sempre em círculo. Pelo anoitecer no verão o riacho sussurra mais escuro - foi então que ouvi o passo de um homem ! Vinha em direção a mim, a mim. - Estenda-se, ponte, fique em posição, viga sem corrimão, segure aquele que lhe foi confiado. Compense, sem deixar vestígio a insegura...