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Departamento das Letras

um mulher muito distinta com seu perfil calculadamente despojado: um casaco vermelho comprado em brechó francês, cabelo desgrenhado com l'oreal paris, trident mascado com sotaque carioca do leblon, perdida-louca pelo pó da mangueira. pelo  negão da mangueira. ela disse que não se fala de literatura no país da fome. que não se fala da fome no país da poesia da ambrosia. preciso ter pena dela. apesar de tudo, sua voz foi apenas o eco do que nos gabinetes se esconde: vinho do porto em cálice pseudo-esquerdista, falsa oposição. eles se incomodam com a presença da face oleosa, suburbana, sem clareamento dentário, que ousa tocar em  seu solo profano da ausência do metro, do arpejo lírico da existência que não suporta o que eles chamam de real. eles se banham no tejo, braços pra cima bradando o vermelho, as rosas pintadas no muro, mas seu discurso é saturado da gordura de suas metáforas inchadas: intelectuais...
ah, semi-deuses:
masturbaram glauber rocha, gozaram filósofos contemporâneos do segundo caderno, donos das letras.
nunca levaram porrada na vida.

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meu amor: eu espero

precisei acolher as suas contradições para perceber o quanto te amo. eu tenho comigo a certeza de que, de qualquer forma, sempre te esperei, te espero e continuarei esperando ainda que eu possa estender o braço e encontrar seu dorso. não vai mudar nada e tudo vai mudar: eis o nosso paradoxo infinito. a espiral que nos envolverá para sempre e por poucos segundos. sim, pois sempre há instantes em que a simplicidade de dizer sim faz sucumbir a obviedade mundana que insiste em ser mais e não. ela é pesada. você sonhava com a leveza. perdoar é difícil para quem vive em ritmo de contar os ritmos: perdoar é difícil a quem prefere arte à vida porque a arte não precisa de perdão. mas eu suplico por tua compaixão e que acredite que possa uma vez mais fechar os olhos e se atirar. confiança. meu amor é vocativo que não cabe na sua faculdade de julgar mas, meu amor, eu espero.

A ponte, Franz Kafka

 A Ponte           Eu estava rígido e frio, era uma ponte estendido sobre um abismo. As pontas dos pés cravadas deste lado, do outro as mãos, eu me prendia firme com os dentes na argila quebradiça. As abas do meu casaco flutuavam pelos meus lados. Na profundeza fazia ruído o gelado riacho de trutas. Nenhum turista se perdia naquela altura intransitável, a ponte ainda não estava assinalada nos mapas. - Assim eu estava estendido e esperava; tinha de esperar. Uma vez erguida, nenhuma ponte pode deixar de ser ponte sem desabar.     Certa vez, era pelo anoitecer - o primeiro, o milésimo, não sei -, meus pensamentos se moviam sempre em confusão e sempre em círculo. Pelo anoitecer no verão o riacho sussurra mais escuro - foi então que ouvi o passo de um homem ! Vinha em direção a mim, a mim. - Estenda-se, ponte, fique em posição, viga sem corrimão, segure aquele que lhe foi confiado. Compense, sem deixar vestígio a insegura...