Pular para o conteúdo principal

acender os olhos

elas me entristecem de alguma forma, mas não deviam. senso estético óbvio, dentro da realidade que as configuram. mas me entristecem assim mesmo. bem sucedidas pessoas, bem-vindas naquele mundo. fotos bonitas no site de relacionamento. influências e sobrenomes. eu procurei apagar aquele tempo, aquela distância percorrida a metrô. aquela conversa vazia cheia de metáforas gordas. todo aquele papo de re-semantização não sei das quantas e re-ivenção e re-leituras e re-olhares e re-significações e
mais e mais de nada e mais nada. e os bolsos se entopem de bons trocados injustificáveis.
que fim levamos?
uma estante de livros,
umas páginas escritas,
um quarto vazio,
fantasmas e uma janela quebrada.
ah, essa cidade que atravesso com todo esse furor da pressa...
no final das contas a gente tem que sempre levar a marmita na mochila
e um monte de palavras entaladas na garganta.
quem pensa nesse país?
quem me lê?
não me interessa
abraço meu pai e choro de verdade
ele não entendeu nada do que eu disse naquele dia
tanto faz
nem tese, nem tanto
quem está condenado afinal?
de onde vem o pensamento neste lugar em que habito?
eu me habito-desabito, eu me leio e me apago.
ora, quanta vaidade essa página -
escreve no papel,
mulher de pouca fé !
esquece!
pega teu rosto com as mãos cansadas,
esfrega as mãos nessa fronte.
sente os sulcos,
o risco na face.
escreve no papel,
ainda que não isto te salve de nada,
e esquece:
elas não sabem do sol do vale,
dos famintos que te esmolam
dos cegos que te rodeiam
dos loucos que te contemplam
elas só se arrepiam no frio da praia eterna
e de cor sabem só sobrenomes.
sobrevoam a vida em aviões
com passagens financiadas pela literatura de seus flagelados.
pega, mulher, a tua luta, esta que lava tua alma
acende teus olhos:
e vê.




Postagens mais visitadas deste blog

meu amor: eu espero

precisei acolher as suas contradições para perceber o quanto te amo. eu tenho comigo a certeza de que, de qualquer forma, sempre te esperei, te espero e continuarei esperando ainda que eu possa estender o braço e encontrar seu dorso. não vai mudar nada e tudo vai mudar: eis o nosso paradoxo infinito. a espiral que nos envolverá para sempre e por poucos segundos. sim, pois sempre há instantes em que a simplicidade de dizer sim faz sucumbir a obviedade mundana que insiste em ser mais e não. ela é pesada. você sonhava com a leveza. perdoar é difícil para quem vive em ritmo de contar os ritmos: perdoar é difícil a quem prefere arte à vida porque a arte não precisa de perdão. mas eu suplico por tua compaixão e que acredite que possa uma vez mais fechar os olhos e se atirar. confiança. meu amor é vocativo que não cabe na sua faculdade de julgar mas, meu amor, eu espero.

A ponte, Franz Kafka

 A Ponte           Eu estava rígido e frio, era uma ponte estendido sobre um abismo. As pontas dos pés cravadas deste lado, do outro as mãos, eu me prendia firme com os dentes na argila quebradiça. As abas do meu casaco flutuavam pelos meus lados. Na profundeza fazia ruído o gelado riacho de trutas. Nenhum turista se perdia naquela altura intransitável, a ponte ainda não estava assinalada nos mapas. - Assim eu estava estendido e esperava; tinha de esperar. Uma vez erguida, nenhuma ponte pode deixar de ser ponte sem desabar.     Certa vez, era pelo anoitecer - o primeiro, o milésimo, não sei -, meus pensamentos se moviam sempre em confusão e sempre em círculo. Pelo anoitecer no verão o riacho sussurra mais escuro - foi então que ouvi o passo de um homem ! Vinha em direção a mim, a mim. - Estenda-se, ponte, fique em posição, viga sem corrimão, segure aquele que lhe foi confiado. Compense, sem deixar vestígio a insegura...