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não me ame tanto

   
   Os verdadeiramente banidos podem escolher a fome, a falta, o desespero da saudade absurda ou até mesmo serem interpelados pela sugestão nefasta da nostalgia e tragar da fumaça da sua cigarrilha. A nostalgia, nesse caso, é a prostituta idosa de meia calça rota, olhos manchados de olheira e lápis cajal. Contudo, como uma personagem de Lynch, ela sabe mais de nós do que toda a narrativa que nos atravessa.
 
(...)

 C. não deveria ter dito que a amava, então, porque ele não pode estar com mais ninguém a não ser com ele-mesmo, não pela força poética do exílio, mas porque as pessoas que acontecem em seu percurso precisam ter a medida da ponte para o alcance de sua passagem.
(ele a encontrou pronta. ela tinha o tamanho certo para ele. depois de destruí-la pedaço por pedaço, ele diz que precisa de espaço. e some.)

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meu amor: eu espero

precisei acolher as suas contradições para perceber o quanto te amo. eu tenho comigo a certeza de que, de qualquer forma, sempre te esperei, te espero e continuarei esperando ainda que eu possa estender o braço e encontrar seu dorso. não vai mudar nada e tudo vai mudar: eis o nosso paradoxo infinito. a espiral que nos envolverá para sempre e por poucos segundos. sim, pois sempre há instantes em que a simplicidade de dizer sim faz sucumbir a obviedade mundana que insiste em ser mais e não. ela é pesada. você sonhava com a leveza. perdoar é difícil para quem vive em ritmo de contar os ritmos: perdoar é difícil a quem prefere arte à vida porque a arte não precisa de perdão. mas eu suplico por tua compaixão e que acredite que possa uma vez mais fechar os olhos e se atirar. confiança. meu amor é vocativo que não cabe na sua faculdade de julgar mas, meu amor, eu espero.

A ponte, Franz Kafka

 A Ponte           Eu estava rígido e frio, era uma ponte estendido sobre um abismo. As pontas dos pés cravadas deste lado, do outro as mãos, eu me prendia firme com os dentes na argila quebradiça. As abas do meu casaco flutuavam pelos meus lados. Na profundeza fazia ruído o gelado riacho de trutas. Nenhum turista se perdia naquela altura intransitável, a ponte ainda não estava assinalada nos mapas. - Assim eu estava estendido e esperava; tinha de esperar. Uma vez erguida, nenhuma ponte pode deixar de ser ponte sem desabar.     Certa vez, era pelo anoitecer - o primeiro, o milésimo, não sei -, meus pensamentos se moviam sempre em confusão e sempre em círculo. Pelo anoitecer no verão o riacho sussurra mais escuro - foi então que ouvi o passo de um homem ! Vinha em direção a mim, a mim. - Estenda-se, ponte, fique em posição, viga sem corrimão, segure aquele que lhe foi confiado. Compense, sem deixar vestígio a insegura...